3 de fevereiro de 2015

PORQUE ASSASSINARAM DOM CARLOS

O acordo de dois partidos, revezando-se sucessivamente no poder, dizendo-se um liberal e outro conservador, segundo o regime inglês, falhara inteiramente na sua reiterada aplicação prática... 
O jogo permanente dessa rotatividade representativa, com vinte anos de funcionamento automático, desgastara todas as engrenagens...
Esse facto era a composição da sociedade, lentamente, surdamente, progressivamente contaminada pela mansa e sinuosa corrupção política.
Quantos sintomas inquietantes! A indisciplina geral, o progressivo rebaixamento dos caracteres, a desqualificação do mérito, o descomedimento das ambições, o espírito de insubordinação, a decadência mental da imprensa, a pusilanimidade da opinião, o rareamento dos homens modelares, o abastardamento das letras, a anarquia da arte, o desgosto do trabalho, a irreligião, e, finalmente, a pavorosa inconsciência do povo.

Dom Carlos foi assassinado por ter cumprido o arriscado mas patriótico dever de não demitir João Franco.

...o rei D. Carlos julgou servir a sua pátria, porque de outros precedentes serviços a pátria lhe deve reconhecimento e gratidão.

...Foi ele que, em sucessivas viagens a nações estrangeiras, pela variedade dos seus conhecimentos e das suas ideias gerais, pela facilidade em falar as línguas, pelo envolvente encanto do seu trato, pela sua bondade ilimitada, e pela despresumida e primorosa elegância das suas maneiras, em contacto não só com chefes de Estado, com soberanos e com príncipes, mas com sábios e artistas, estabeleceu entre o espírito português e o espírito europeu um conhecimento recíproco, uma afectuosidade carinhosa, uma entente cordiale, enfim, que nunca outrora se deu. Neste ponto de vista, a sua projectada viagem ao Brasil seria o mais belo coroamento da sua obra de internacionalidade, de simpatia e de paz. Nenhuma dúvida de que o seu exemplo seria seguido por outros chefes de Estado...

...É inteiramente incontestável que a nossa política externa, na qual a sua influência pessoal actuou mais directa e desafogadamente do que na política interna, foi durante o seu reinado habilidosamente conduzida, fazendo subida honra à diplomacia portuguesa em todas as chancelarias da Europa e da América.